THE CROSSING TIME
Edição especial nº XX · 19 de agosto de 2026 · Memória
Laura Cardoso
Laura Cardoso1927 — 2026
Glória Menezes
Glória Menezes1934 — 2026

Duas trajetórias da mesma geração que fez a televisão brasileira. Fotos de arquivo · créditos a confirmar

Especial · Homenagem
Cultura · Brasil · Memória

Duas vidas, duas gigantes, quase um século de arte: o Brasil se despede de Laura Cardoso e Glória Menezes

Em dois dias consecutivos, a dramaturgia brasileira perdeu duas de suas maiores representantes. Das primeiras experiências da televisão às grandes novelas nacionais, Laura e Glória atravessaram gerações, construíram famílias, viveram grandes amores e deixaram uma obra que ajuda a contar a própria história cultural do Brasil.
Laura Cardoso
1927 — 2026 · 98 anos
Glória Menezes
1934 — 2026 · 91 anos
AL
Por Anne LopesCEO e Fundadora da THE CROSSING TIME
Quarta-feira, 19 de agosto de 2026 São Paulo · Rio de Janeiro Tempo de leitura: 18 min

Em algumas despedidas, dizer que “morreu uma atriz” parece pequeno demais.

Laura Cardoso e Glória Menezes não foram apenas duas mulheres que passaram décadas diante das câmeras. Elas pertenceram a uma geração que ajudou a transformar uma invenção ainda experimental chamada televisão em parte da identidade brasileira.

Laura começou quando o rádio ainda fazia famílias inteiras se reunirem ao redor de um aparelho para acompanhar histórias. Glória chegou à televisão quando a novela diária dava seus primeiros passos. Elas viram a imagem em preto e branco ganhar cores. Viram os pequenos estúdios se transformarem em grandes complexos de produção. Viram a telenovela brasileira atravessar continentes. E permaneceram.

Em dois dias consecutivos, esse capítulo da cultura brasileira sofreu duas perdas enormes: Laura Cardoso morreu em 17 de agosto de 2026, aos 98 anos, em São Paulo. Glória Menezes morreu no dia seguinte, 18 de agosto, aos 91 anos, no Rio de Janeiro. São duas histórias que merecem ser contadas desde o começo.

Parte um
Laura Cardoso
São Paulo, 1927 — 2026
Laura Cardoso. Quase oito décadas de carreira, do rádio às novelas. Foto de arquivo · crédito a confirmar.
Origem

Antes de Laura, existia Laurinda

Laura Cardoso nasceu Laurinda de Jesus Cardoso, em 13 de setembro de 1927, em São Paulo, em uma família de origem portuguesa. Sua infância foi vivida na região do Bixiga/Bela Vista, território profundamente ligado à história cultural paulistana.

Muito antes de entender o que significava ser atriz, Laurinda já representava. A própria artista recordaria que, ainda menina, brincava de teatro com uma amiga: vestiam roupas e acessórios de adultos e transformavam a calçada e o bonde em cenário para suas histórias.

A vocação, porém, enfrentou resistência. Naquela época, seguir uma carreira artística não era necessariamente considerado um caminho adequado para uma jovem. Laura contou que precisou enfrentar o preconceito existente contra mulheres que desejavam entrar no rádio e no mundo da representação. Aos 15 anos, tomou a decisão que determinaria praticamente todo o restante de sua vida: começou a trabalhar em radionovelas. Foi nesse período que Laurinda se tornou Laura Cardoso. E começava ali uma carreira de aproximadamente oito décadas.

O rádio

Onde tudo começou

Antes da televisão, veio o microfone. Laura passou por emissoras como Rádio Cosmos, Bandeirantes, Cultura, Tupi e Difusora, construindo experiência em uma época em que a interpretação dependia essencialmente da voz. A radioatriz precisava fazer o público imaginar: um suspiro, uma pausa, uma mudança na entonação eram suficientes para construir uma personagem inteira. Essa escola ajudaria a formar uma das intérpretes mais completas de sua geração. E foi justamente no ambiente do rádio que Laura encontrou também o grande amor de sua vida.

Amor

Fernando Balleroni: uma vida compartilhada

Laura conheceu Fernando Balleroni em 1946, na Rádio Tupi. Ele também pertencia ao mundo artístico: foi ator, diretor, roteirista e produtor, com atuação no rádio, no cinema e na televisão. Casaram-se em 1949. O casamento duraria até a morte de Fernando, em 1980, poucos dias antes de ele completar 58 anos. Laura não voltou a se casar.

O casal teve três filhos. O único menino, José, morreu poucos dias depois do nascimento. As filhas Fátima e Fernanda sobreviveram e mantiveram uma vida muito mais discreta do que a mãe. Com o passar dos anos vieram netos e bisnetos. Para Laura, família e profissão não eram mundos completamente separados — ela chegou a definir a família como seu “alicerce”. Décadas depois da morte de Fernando, a memória dele continuava presente: um bisneto da atriz recebeu o nome Fernando Balleroni em homenagem ao artista.

Uma vida inteira em cena. Laura definia a família como seu “alicerce”. Foto de arquivo · crédito a confirmar.
Pioneira

Laura estava lá quando a televisão brasileira começava

Para compreender a dimensão histórica de Laura Cardoso, é preciso voltar à década de 1950. A televisão brasileira praticamente acabara de nascer — e Laura esteve entre seus pioneiros. Em 1952, participou de Tribunal do Coração, na TV Tupi, produção dirigida por Vida Alves. Depois vieram teleteatros, séries e novelas. Um Lugar ao Sol, em 1959, foi um dos trabalhos daquele primeiro período. Posteriormente, Laura passou por Record, Excelsior, Cultura, Bandeirantes e outras emissoras.

Ela não assistiu à história da televisão brasileira de longe. Laura fazia parte dela.

Palco e tela

O teatro e o cinema

A televisão foi apenas uma das casas de Laura. Sua estreia teatral ocorreu em 1959, com Plantão 21, espetáculo ligado ao Pequeno Teatro de Comédia e a Antunes Filho. No cinema, estreou em Imitando o Sol, em 1964.

Ao longo das décadas, acumulou uma extensa produção cinematográfica, além de trabalhos em curtas e longas-metragens — fontes biográficas contabilizam dezenas de filmes e mais de uma centena de trabalhos considerando toda a sua produção audiovisual. Sua longevidade permitiu algo raríssimo: trabalhar com diferentes gerações de diretores, autores e atores e acompanhar mudanças profundas na maneira brasileira de fazer cinema e televisão.

Sempre em atividade. Aos 90 e poucos anos, Laura ainda estudava textos e recusava a ideia de se aposentar. Foto de arquivo · crédito a confirmar.
A Globo

Uma sucessão impressionante de novelas

Laura estreou na Globo em 1981, em Brilhante, de Gilberto Braga, interpretando Alda Sampaio. Depois passou brevemente pela Bandeirantes, onde fez Ninho da Serpente e Renúncia, e retornou à Globo. A partir daí, sua filmografia televisiva se confunde com a memória da novela brasileira.

Na Globo, entre muitas outras

Brilhante (1981); Pão-Pão, Beijo-Beijo (1983); Livre para Voar (1984); Fera Radical (1988); Rainha da Sucata (1990); Felicidade (1991); Mulheres de Areia (1993); A Viagem (1994); Irmãos Coragem e Explode Coração (1995); Salsa e Merengue (1996); Meu Bem Querer (1998); Vila Madalena (1999); A Padroeira (2001); Esperança (2002); Chocolate com Pimenta (2003/2004); Como uma Onda (2004/2005); Belíssima (2005/2006); O Profeta (2006); Desejo Proibido (2007); Duas Caras (2007/2008); Caminho das Índias (2009); Araguaia (2010); Gabriela (2012); Flor do Caribe (2013); Boogie Oogie e Império (2014); Sol Nascente (2016); O Outro Lado do Paraíso (2017) e A Dona do Pedaço (2019). Também esteve em Hoje É Dia de Maria, A Grande Família, Sai de Baixo, Os Normais, A Diarista, A Vida Como Ela É... e A Comédia da Vida Privada, entre outras.

Personagens

O que o Brasil não esqueceu

É impossível falar de todos com a mesma profundidade, mas alguns papéis permanecem especialmente fortes na memória do público: Donana, de Pão-Pão, Beijo-Beijo; Isaura, de Mulheres de Areia; Guiomar, de A Viagem; Dona Carmem, de Chocolate com Pimenta; Francisquinha, de Como uma Onda; Laksmi Ananda, de Caminho das Índias; Sinhá, de Sol Nascente; Caetana, de O Outro Lado do Paraíso; e, finalmente, Matilde, de A Dona do Pedaço.

Sua última novela foi justamente A Dona do Pedaço, em 2019. Aos 92 anos, interpretou uma mulher com Alzheimer que carregava uma informação fundamental para a história. Laura se despedia das novelas, mas não da arte: em 2025, protagonizou o curta Dona Rosinha e participou da tradicional vinheta de fim de ano da Globo.

Ofício

A mulher que não queria se aposentar

Há algo essencial para entender Laura: ela gostava de trabalhar. Não tratava a atuação como uma lembrança gloriosa da juventude — queria continuar. Mesmo quando a idade avançada naturalmente reduziu sua presença nas produções, Laura rejeitava a ideia de que uma mulher idosa deveria simplesmente desaparecer da vida profissional. Seu combustível parecia ser exatamente aquele que a havia colocado diante de um microfone aos 15 anos: vontade de representar.

Em outubro de 2025, recebeu uma estrela na Calçada da Fama dos Estúdios Globo. Depois de uma vida inteira ajudando a construir aquela história, seu nome passava também a ocupar fisicamente aquele espaço.

Reconhecimento

Prêmios e legado

Seria difícil reunir em poucas linhas todas as distinções recebidas por Laura. Ao longo da carreira, acumulou dezenas de prêmios e homenagens, incluindo reconhecimentos da APCA, do Grande Otelo, do Festival de Gramado, do Troféu Imprensa e do Prêmio Shell. Em 2002, recebeu o Troféu Mário Lago pelo conjunto da obra. Em 2006, foi condecorada com a Ordem do Mérito Cultural. Os prêmios, entretanto, contam apenas uma parte. Talvez sua maior conquista tenha sido outra: uma atriz com mais de 90 anos continuar sendo reconhecida por crianças, pais e avós. Pouquíssimos artistas atravessam tantas gerações.

Parte dois
Glória Menezes
Pelotas, 1934 — 2026
Glória Menezes. Mais de seis décadas de carreira e mais de 40 novelas na Globo. Foto de arquivo · crédito a confirmar.
Origem

Antes da Glória que o Brasil conheceu

Glória Menezes também começou com outro nome. Ela nasceu Nilcedes Soares de Magalhães, em 19 de outubro de 1934, em Pelotas, no Rio Grande do Sul. Mudou-se ainda criança para São Paulo. Mais tarde adotaria um nome artístico destinado a se tornar um dos mais reconhecidos da cultura brasileira: Glória Menezes.

Estudou na Escola de Arte Dramática da USP e participou da criação de um grupo de teatro amador. Em 1959, ganhou reconhecimento como atriz revelação em um festival de teatro amador promovido por Antunes Filho. Naquele mesmo período estreou na televisão, em Um Lugar ao Sol. A ascensão foi extraordinariamente rápida.

Início

Antes de Tarcísio: casamento e maternidade

A história pessoal de Glória não começou com Tarcísio Meira. Seu primeiro casamento foi com Arnaldo Brito, entre 1951 e 1959. Dessa relação nasceram Maria Amélia Brito e João Paulo Brito. Os dois escolheram trajetórias distantes da exposição dos pais: João Paulo tornou-se médico-veterinário e Maria Amélia preservou uma vida privada. Mais tarde, o encontro com outro jovem ator mudaria tanto sua vida pessoal quanto sua trajetória artística.

Uma estrela em ascensão. Ainda muito jovem, Glória já circulava entre teatro, cinema e a televisão que nascia. Foto de arquivo · crédito a confirmar.
Parceria

Glória e Tarcísio

Glória conheceu Tarcísio Meira no começo dos anos 1960. Casaram-se em 1962. A união durou 59 anos, até a morte de Tarcísio, em agosto de 2021, em decorrência de complicações da Covid-19. Do casamento nasceu Tarcísio Filho, que também se tornaria ator.

O casal transformou-se em algo raro no imaginário brasileiro: estrelas individualmente enormes que, juntas, formaram também uma das duplas mais reconhecidas da televisão. Trabalharam lado a lado inúmeras vezes, e o público acompanhava aquela parceria também fora da ficção. Amor, família e trabalho acabaram se misturando na imagem pública dos dois.

Cinema

Cannes antes das grandes novelas

Antes de se tornar uma das rainhas da televisão, Glória participou de um capítulo extraordinário do cinema brasileiro. O diretor Anselmo Duarte a convidou para interpretar Rosa em O Pagador de Promessas. O filme chegou ao Festival de Cannes em 1962 e conquistou a Palma de Ouro — até hoje, o único longa-metragem brasileiro vencedor da principal competição de Cannes.

Isso significa que, muito antes de milhões de brasileiros acompanharem Glória diariamente nas novelas, sua imagem já havia participado de um dos momentos mais importantes da história internacional do cinema nacional.

Marco

Glória e o nascimento da novela diária

Em 1963, Glória Menezes e Tarcísio Meira protagonizaram 2-5499 Ocupado, da TV Excelsior — produção reconhecida como a primeira telenovela diária brasileira. Hoje, assistir a uma novela de segunda a sábado parece absolutamente normal. Naquele momento, era uma transformação de linguagem e de hábito. E Glória estava no centro dela.

A Globo

Mais de 40 novelas

Sua estreia na Globo aconteceu em 1967, em Sangue e Areia. A partir daí, acumulou mais de 40 telenovelas na emissora e se tornou uma das grandes protagonistas da história da casa.

Entre seus muitos trabalhos

Sangue e Areia, Passo dos Ventos, Rosa Rebelde, Irmãos Coragem, O Homem que Deve Morrer, Cavalo de Aço, O Semideus, O Grito, Espelho Mágico, Pai Herói, Jogo da Vida, Guerra dos Sexos, Corpo a Corpo, Brega & Chique, Rainha da Sucata, Deus nos Acuda, A Próxima Vítima, Vira-Lata, Torre de Babel, Porto dos Milagres, O Beijo do Vampiro, Da Cor do Pecado, Senhora do Destino, Páginas da Vida, A Favorita, além de participações em Cama de Gato e Joia Rara e sua despedida das novelas em Totalmente Demais. Também protagonizou com o marido o seriado Tarcísio & Glória (1988) e, mais tarde, esteve em Louco por Elas.

Do drama à comédia. Glória transitava entre a aristocrata e a mulher popular, a heroína e a vilã, sem se limitar a uma única imagem. Foto de arquivo · crédito a confirmar.
Personagens

Mulheres completamente diferentes umas das outras

Glória jamais ficou limitada à imagem de “mocinha elegante”. Em Irmãos Coragem, viveu uma personagem associada a múltiplas personalidades; em Pai Herói, foi Ana Preta; em Guerra dos Sexos, Roberta Leone; em Brega & Chique, Rosemere; e em Rainha da Sucata transformou Laurinha Figueroa em uma das vilãs mais memoráveis da televisão. Depois vieram Júlia Braga, de A Próxima Vítima; Marta, de Torre de Babel; Zoroastra, de O Beijo do Vampiro; a Baronesa Laura, de Senhora do Destino; Irene, de A Favorita; e Stelinha, de Totalmente Demais.

Ela podia ser aristocrática em uma novela e popular na seguinte; dramática e depois cômica; heroína e vilã. Esse trânsito entre registros diferentes explica parte de sua longevidade.

Cinema e palco

Muito além de uma única tela

O Pagador de Promessas ocupa um lugar especial, mas não foi seu único filme. Glória também esteve em produções como Lampião, o Rei do Cangaço; Máscara da Traição; Independência ou Morte (na qual interpretou a Marquesa de Santos); O Descarte; O Caçador de Esmeraldas; Para Viver um Grande Amor e, décadas depois, Se Eu Fosse Você.

A televisão tornou seu rosto conhecido nacionalmente, mas Glória nunca deixou de ser também uma atriz de palco. Entre seus trabalhos teatrais de destaque estiveram As Feiticeiras de Salém, Tudo Bem no Ano Que Vem, Navalha na Carne, Jornada de um Poema e Ensina-me a Viver. Tudo Bem no Ano Que Vem permaneceu em cartaz entre 1976 e 1981; já Ensina-me a Viver, na qual interpretou Maude, teve uma longa trajetória entre 2008 e 2016. O palco permitia algo diferente da televisão: nenhuma edição, nenhuma segunda tentativa. Era atriz e público, frente a frente.

Imagem pública

Glória também entrou para a história da publicidade

Existe ainda uma parte menos lembrada de sua presença cultural. Glória e Tarcísio foram também rostos importantes da publicidade brasileira. A força simbólica do casal — associada a amor, confiança e estabilidade — foi utilizada em campanhas de diferentes épocas, incluindo anúncios para Ducal, Primor e Prodóscimo. Em uma época anterior às redes sociais, quando a televisão aberta concentrava audiências gigantescas, Glória e Tarcísio estavam entre os poucos artistas capazes de emprestar às marcas uma familiaridade quase doméstica. O público não apenas conhecia os atores — sentia que havia envelhecido junto com eles.

Depois das câmeras

A vida em outro ritmo

Com o passar dos anos, Glória reduziu o ritmo profissional. Seu último trabalho em novela foi Totalmente Demais, em 2015; posteriormente, ainda fez aparições televisivas, incluindo Tá no Ar: a TV na TV e homenagens. Em 2020, depois de décadas de vínculo com a Globo, ela e Tarcísio deixaram a emissora. O casal também passou períodos em sua propriedade em Porto Feliz, interior de São Paulo, longe do ritmo intenso dos estúdios.

Então veio 2021. Glória e Tarcísio foram hospitalizados com Covid-19. Ela conseguiu se recuperar. Ele não. Depois de quase seis décadas de casamento, Glória precisou viver a ausência daquele que havia sido companheiro de casa, palco, televisão e vida. Em 2025, foi homenageada no especial Tributo, revisitando sua trajetória, seus personagens e a relação com Tarcísio. Um ano depois, sua própria história chegaria ao fim.

Parte três
Duas maneiras de ser gigante
Onde as histórias se encontram
Laura Cardoso e Glória Menezes. Duas trajetórias da mesma geração que fez a transição entre diferentes eras da dramaturgia brasileira. Fotos de arquivo · créditos a confirmar.
Encontro

Quando duas histórias se cruzaram

Existe uma beleza particular no fato de que essas duas trajetórias não correram sempre paralelas — em determinados momentos, elas se encontraram. Laura e Glória dividiram produções ao longo das décadas e pertenciam ao mesmo grupo extraordinário de mulheres que fizeram a transição entre diferentes eras da dramaturgia. Nathália Timberg, outra representante dessa geração, homenageou as duas depois das mortes consecutivas e relembrou décadas de amizade e trabalho. Por trás das personagens existia uma comunidade de artistas que envelheceu trabalhando junta.

Contraste

Não precisavam ser iguais

Laura construiu muito de sua grandeza na capacidade de transformar personagens de apoio em centros emocionais das histórias. Glória carregou durante décadas a condição de protagonista e grande estrela. Laura podia chegar a uma novela interpretando uma avó aparentemente simples e fazer daquela mulher uma personagem inesquecível. Glória podia entrar em cena como uma aristocrata e dominar completamente o ambiente. Uma representava extraordinariamente a força das mulheres comuns; a outra ajudou a construir a imagem da grande estrela da televisão. Mas ambas tinham algo em comum:

Presença. Quando estavam em cena, era difícil olhar para outro lugar.

Perda

O que o Brasil perde

Perde duas atrizes extraordinárias. Mas perde também algo que não pode ser contratado, treinado ou recriado: memória viva. Laura sabia como era fazer televisão quando praticamente ninguém no Brasil tinha televisão. Glória sabia como era protagonizar uma novela diária quando o próprio conceito de novela diária ainda era novidade. Elas conheceram uma indústria antes dos grandes estúdios, das plataformas digitais, do streaming e das redes sociais. Atravessaram mudanças políticas, sociais e culturais do país e interpretaram diferentes representações da mulher brasileira ao longo de mais de meio século. E envelheceram diante do público.

Isso também importa. Em uma indústria frequentemente obcecada pela juventude, especialmente quando se trata de mulheres, Laura e Glória provaram que uma atriz não perde relevância porque envelheceu. Ela ganha história.

Legado

O que fica para as próximas gerações

Para uma jovem atriz que começa hoje, Laura Cardoso deixa uma lição sobre longevidade e ofício: uma carreira não precisa ser construída apenas em torno da fama — pode ser construída personagem por personagem, década após década. Glória deixa outra lição igualmente poderosa: uma estrela pode se reinventar — protagonista, vilã, atriz de cinema, atriz de teatro, comediante, mãe, esposa e mulher pública, sem se limitar a uma única imagem.

As duas também deixam um enorme arquivo cultural. Suas novelas são reprisadas. Seus filmes permanecem disponíveis. Suas entrevistas estão registradas. Seus personagens continuam sendo descobertos por novas gerações. E nisso existe algo quase poético sobre o trabalho de uma atriz: a pessoa morre, mas a personagem não sabe disso. Ela continua entrando pela porta. Continua sorrindo. Continua brigando. Continua chorando. Continua apaixonada. Basta alguém apertar o play.

Laura Cardoso viveu 98 anos. Glória Menezes, 91. Somadas, são quase dois séculos de vida — mas números ainda são insuficientes para explicar o que elas representaram.

Porque uma vida artística não se mede apenas em anos. Mede-se nas pessoas que pararam diante da televisão para assistir; nas famílias que comentaram uma novela durante o jantar; nas crianças que cresceram e, décadas depois, encontraram as mesmas atrizes interpretando avós; nas mulheres que se reconheceram em suas personagens; nos atores que vieram depois; nos autores que escreveram pensando nelas. Nos aplausos. Nas cortinas que se abriram. Nas câmeras que acenderam.

Laura começou quando uma jovem precisava enfrentar a própria família para explicar por que queria ser atriz. Glória começou quando a televisão brasileira ainda estava aprendendo a contar histórias. E as duas chegaram ao século XXI reconhecidas como aquilo que sempre foram: artistas. Foram estrelas — mas foram também esposas, mães, avós, bisavós, mulheres que conheceram amor, maternidade, trabalho, perdas, envelhecimento e recomeços. Talvez por isso tenham interpretado tão bem: antes de representar tantas vidas, viveram profundamente as próprias.

Agora as câmeras se apagam para as duas. Mas não completamente. Em algum lugar, neste exato momento, Laura Cardoso ainda está entrando em cena em uma reprise de Mulheres de Areia. Glória Menezes ainda está olhando para Tarcísio em uma imagem preservada de décadas atrás. Elas continuam jovens. Depois envelhecem. E ficam jovens novamente. Essa é uma das estranhas formas de eternidade que a arte oferece.

O Brasil perdeu Laura Cardoso e Glória Menezes. Mas não perderá aquilo que elas fizeram.

Porque existem artistas que pertencem a uma geração. E existem aquelas que, depois de uma vida inteira contando as nossas histórias, passam a pertencer à história de um país.

Laura Cardoso — 1927–2026
Glória Menezes — 1934–2026

Obrigada, Laura. Obrigada, Glória.

Nota Editorial

Verificação. Os falecimentos e as idades foram confirmados em veículos de referência — G1, UOL, CNN Brasil, Folha de S.Paulo e Brasil 247: Laura Cardoso, aos 98 anos (17 de agosto de 2026), e Glória Menezes, aos 91 anos (18 de agosto de 2026). Os dados biográficos foram cotejados com Memória Globo, Memória ABERT e acervos de imprensa.

Correção. Esta edição corrige a informação de datas veiculada anteriormente: Laura Cardoso morreu em 17 de agosto; Glória Menezes, em 18 de agosto de 2026 — e não na mesma data.

Imagens. Os retratos foram recortados de registros de imprensa e biografias, sem elementos de interface, marcas d'água ou tipografia de outros veículos. Não são propriedade da The Crossing Time; todos os direitos pertencem aos autores e detentores originais. Créditos a confirmar antes da publicação.

Sobre as imagens desta edição: as fotografias têm caráter ilustrativo e memorial e não são propriedade nem copyright da The Crossing Time. Todos os direitos pertencem aos seus autores e detentores originais. A utilização tem caráter estritamente informativo e jornalístico.

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