Há pessoas que nascem em um lugar. E há pessoas que precisam nascer outra vez em outro.
Migrar talvez seja uma das formas mais silenciosas de coragem.
Porque ninguém coloca uma vida inteira dentro de uma mala.
Na mala cabem roupas, documentos, algumas fotografias, talvez um presente de alguém que ficou. Mas não cabem os domingos em família. Não cabe o cheiro da casa da mãe. Não cabe o abraço do pai. Não cabem os amigos, as ruas conhecidas, as vozes que pronunciam nosso nome como se ele também fosse um lugar.
Quem migra descobre cedo que partir não significa apenas atravessar uma fronteira.
Significa atravessar a si mesmo.
É chegar a uma cidade onde ninguém conhece a sua história e, ainda assim, levantar todas as manhãs para escrever uma nova.
É aprender outra língua e perceber que, durante algum tempo, até a própria personalidade parece falar mais baixo.
É ter muito para dizer e poucas palavras para explicar.
É ouvir o sotaque na própria voz e compreender que ele não é um defeito. É a geografia da nossa história.