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THE CROSSING TIME
Blog ◆ Ensaio
Pessoas caminhando com malas por uma alameda de árvores no outono
Ensaio

Nós somos aqueles que atravessaram

Porque ninguém coloca uma vida inteira dentro de uma mala — e ainda assim milhões de pessoas tentam, todos os dias.
Foto: reprodução/internet
AL
Por Anne Lopes CEO e Fundadora da THE CROSSING TIME
The Crossing Time ◆ Blog

Há pessoas que nascem em um lugar. E há pessoas que precisam nascer outra vez em outro.

Migrar talvez seja uma das formas mais silenciosas de coragem.

Porque ninguém coloca uma vida inteira dentro de uma mala.

Na mala cabem roupas, documentos, algumas fotografias, talvez um presente de alguém que ficou. Mas não cabem os domingos em família. Não cabe o cheiro da casa da mãe. Não cabe o abraço do pai. Não cabem os amigos, as ruas conhecidas, as vozes que pronunciam nosso nome como se ele também fosse um lugar.

◆ ◆ ◆

Quem migra descobre cedo que partir não significa apenas atravessar uma fronteira.

Significa atravessar a si mesmo.

É chegar a uma cidade onde ninguém conhece a sua história e, ainda assim, levantar todas as manhãs para escrever uma nova.

É aprender outra língua e perceber que, durante algum tempo, até a própria personalidade parece falar mais baixo.

É ter muito para dizer e poucas palavras para explicar.

É ouvir o sotaque na própria voz e compreender que ele não é um defeito. É a geografia da nossa história.

Duas mulheres atravessam uma rua parisiense
Uma rua qualquer, uma cidade nova. Migrar é aprender a dizer bonjour, merci, pardon — enquanto, por dentro, algumas lembranças continuam falando português.

É olhar pela janela de um trem atravessando Paris e pensar, por alguns segundos:

“Como foi que a minha vida veio parar aqui?”

Há quem tenha atravessado o oceano por amor.

Há quem tenha vindo por trabalho.

Há quem tenha fugido da pobreza, da violência, da falta de oportunidades.

Há quem tenha chegado com um contrato.

Há quem tenha chegado apenas com esperança.

Alguns encontraram exatamente aquilo que procuravam. Outros encontraram solidão.

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Porque existe uma parte da imigração que quase nunca aparece nas fotografias.

Não aparece no sorriso diante da Torre Eiffel. Não aparece no primeiro vídeo dizendo: “Cheguei na Europa.”

É a saudade quando alguém adoece do outro lado do oceano. É receber uma notícia difícil e descobrir que existem milhares de quilômetros entre você e o abraço que gostaria de dar.

É perder aniversários.

Casamentos.

Nascimentos.

Despedidas.

É perceber que o tempo também atravessa fronteiras — e não espera ninguém voltar.

Mulher de costas com mochila diante da Torre Eiffel
O que a fotografia não mostra. Existe uma parte da imigração que não aparece no primeiro vídeo dizendo “cheguei na Europa”.
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Mas existe outra história. A história daqueles que resistem.

Dos que começaram limpando casas e depois abriram empresas.

Dos que chegaram sem falar a língua e, anos depois, ajudam outros a encontrar o próprio caminho.

Das mulheres que reconstruíram suas vidas depois da violência.

Dos homens e mulheres que enfrentaram documentos, filas, recusas, portas fechadas — e continuaram acreditando.

Dos brasileiros que transformaram pequenos restaurantes em pontos de encontro.

Dos profissionais que fizeram seus diplomas atravessarem oceanos.

Dos empreendedores que começaram praticamente do zero.

Das mães que criam filhos entre duas culturas.

Das crianças que aprendem que podem pertencer a dois lugares ao mesmo tempo.

E também existem histórias que não terminaram como deveriam.

Pessoas que partiram para construir uma vida e nunca conseguiram voltar.

Pessoas desaparecidas.

Famílias esperando uma ligação.

Histórias interrompidas longe de casa.

Por isso falar de imigração nunca deveria ser apenas falar de números.

Fila de passageiros diante do controle de fronteira em um aeroporto
Controle de fronteira. Por trás de cada estatística existe alguém: uma mãe esperando notícias, um filho tentando vencer, uma mulher recomeçando.

Por trás de cada estatística existe alguém.

Existe uma mãe esperando notícias.

Um filho tentando vencer.

Uma mulher recomeçando.

Um trabalhador acordando antes do amanhecer.

Um estudante aprendendo.

Um empresário tentando construir.

Uma família separada por continentes.

Um sonho. Um medo. Uma saudade. Uma história.

Talvez seja isso que tantas fronteiras ainda não conseguiram compreender:

Antes de sermos imigrantes, somos pessoas.

E pessoas carregam mundos dentro delas
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Quem atravessa uma fronteira não abandona necessariamente sua terra. Às vezes, passa a carregá-la ainda mais profundamente.

O Brasil continua existindo naquele café feito cedo.

Na música colocada no domingo.

Na comida preparada para os amigos estrangeiros.

Na chamada de vídeo com a família.

Na bandeira guardada em alguma gaveta.

Naquele saudade que nenhuma outra língua conseguiu traduzir completamente.

Família com malas em um saguão de aeroporto
Entre mundos. A pessoa que partiu já não pertence somente ao lugar que deixou — mas também nunca pertence completamente ao lugar onde chegou.

Com o tempo, algo curioso acontece.

A pessoa que partiu já não pertence somente ao lugar que deixou. Mas também nunca pertence completamente ao lugar onde chegou. Ela passa a viver entre mundos.

E talvez exista beleza nisso. Porque algumas pessoas não foram feitas para pertencer a apenas uma geografia. Foram feitas para construir pontes. Entre países. Entre idiomas. Entre culturas. Entre pessoas.

◆ ◆ ◆

Um dia, talvez, alguém pergunte: “De onde você é?”

E a resposta já não será tão simples.

Porque você será um pouco da cidade onde nasceu.

Um pouco das pessoas que deixou.

Um pouco das ruas onde aprendeu a sobreviver.

Um pouco dos países que atravessou.

Um pouco das perdas.

Muito dos recomeços.

E completamente feito das escolhas que teve coragem de fazer.

Migrar é partir. Mas também é permanecer.
É perder. Mas também encontrar.

É sentir medo e continuar caminhando mesmo assim.

Talvez ninguém atravesse um oceano e permaneça exatamente a mesma pessoa. Porque algumas viagens mudam nosso endereço. Outras mudam nossa história. E algumas mudam quem somos para sempre.

Anne Lopes
Paris ◆ The Crossing Time
CEO e Fundadora
AL
Anne Lopes
CEO e Fundadora da The Crossing Time

Jornalista e fundadora da The Crossing Time — Porta Voz do Imigrante, publicação dedicada à comunidade brasileira e imigrante na Europa. Escreve sobre mobilidade, direitos, sociedade e as travessias que não cabem nas estatísticas. Este texto pertence à seção Blog, espaço de escrita autoral da revista.

Sobre as imagens deste ensaio: as fotografias são ilustrativas, provenientes da internet, e não retratam pessoas ou situações específicas mencionadas no texto. Elas não são propriedade nem copyright da The Crossing Time — todos os direitos pertencem aos seus autores e detentores originais. A utilização tem caráter estritamente editorial.

À propos des images : les photographies sont illustratives, proviennent d'internet et ne représentent aucune personne ni situation spécifique mentionnée dans le texte. Elles ne sont ni la propriété ni le copyright de The Crossing Time.

Blog ◆ Ensaio ◆ Imigração ◆ Mobilidade ◆ Pertencimento
Publicado em thecrossingtime.com
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Atravessamos aeroportos, estações, idiomas, burocracias, preconceitos, saudades e medos.

Mas continuamos.

Porque, no fundo, toda migração começa com uma pergunta:
“E se existir uma vida possível do outro lado?”

Milhões de pessoas fizeram essa pergunta antes de nós. Milhões ainda farão.

E enquanto existirem pessoas dispostas a atravessar fronteiras em busca de dignidade, segurança, amor, liberdade ou simplesmente uma oportunidade de começar novamente, existirão histórias que merecem ser contadas.

Fronteiras dividem territórios.
Histórias atravessam fronteiras.
The Crossing TimeInformação que atravessa fronteiras.
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